Existe uma crença quase automática em educação financeira: quem tem dívida é porque ganha pouco, ou não sabe se organizar. É o julgamento mais rápido que qualquer um faz ao ver alguém no vermelho, e também o mais confortável pra quem ainda não passou por isso, porque separa o mundo entre "gente organizada" e "gente que não se planeja".
O problema é que esse mito não sobrevive ao dado mais recente sobre endividamento das famílias brasileiras. Ele nem sequer é verdade pra quem está no topo da pirâmide de renda.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), feita pela CNC — a entidade que representa o comércio no Brasil — trouxe um dado que confronta diretamente esse julgamento: entre quem ganha mais de 10 salários mínimos por mês, 72% está endividado agora, referente a julho de 2026. E essa não é uma faixa qualquer: foi a que mais acelerou a dívida no ano, com alta de 4,1 pontos percentuais.
Ou seja, o grupo que "deveria" estar mais protegido da dívida, por ter mais renda disponível, foi justamente o que mais piorou nos últimos meses.
Um ponto importante que costuma se perder nessa conversa: ter dívida (dever dinheiro) não é a mesma coisa que estar inadimplente (não conseguir pagar no prazo). Entre quem ganha mais de 10 salários mínimos, só 15,1% está inadimplente. Entre quem ganha até 3 salários mínimos, esse número sobe para 38,5%, mais que o dobro.
Essa diferença mostra o que realmente muda entre as faixas de renda: não é a existência da dívida, é o fôlego pra sustentá-la sem atrasar. Quem ganha mais também se afoga em dívida, só tem mais tempo antes de afundar de vez.
O erro de raciocínio por trás do mito é achar que dívida é resultado de falta de disciplina ou de conhecimento. Na prática, dívida cresce onde há acesso fácil a crédito, custo de vida em alta e um padrão de consumo que acompanha a renda, não o que sobra dela. Ganhar mais aumenta os limites de cartão, o apetite por financiamento e a pressão social pra manter um padrão, exatamente os ingredientes que fazem a dívida crescer em qualquer faixa de renda.
O que protege de verdade não é o salário no contracheque. É saber, com precisão, quanto custa a sua vida por mês e quanto sobra depois disso, seja qual for a sua renda.
Faixa de renda nenhuma garante que alguém está longe do limite. A única forma de saber onde você está é fazer a conta: quanto entra, quanto sai em contas fixas, e quanto realmente sobra antes de qualquer nova dívida entrar na equação. É exatamente esse cálculo que o Grana faz por você, mostrando o seu custo de sobrevivência de forma clara, sem depender de quanto você ganha por mês para saber se está perto do limite ou ainda longe dele.